Girl From Sao Paulo

"you are crossing the tropic of capricorn".

25 February 2009

Pai


Quando eu era criança, já percebia que meu pai era diferente. Ele não acordava cedo como todos os outros para sair para o trabalho, e nem almoçava ou jantava com a familia. Meu pai era chefe de cozinha, e por isso, nossos encontros eram no meio da tarde, quando ele descansava entre o almoço e o jantar do restaurante. Minha mãe me levava até um cafê onde o pai nos encontrava, e eu comia um iogurte de morango daqueles que vinham em potinho de vidro. Com uma colherzinha de café comia o recheio de um pastel de nata e depois com a mesma colher raspava o fundo da chicara de cafézinho do meu pai, que nela punha açucar sem o mexer para que eu o pudesse comer no fim. os dias em que eu não podia visitá-lo, acordava de manhã e olhava na mesinha de cabeceira onde ele sempre deixava um chocolate em formato de guarda chuva que era popular entre crianças naquela época. Quando a minha mãe precisava fazer alguma coisa na pausa dele, eu ficava com o meu pai na cozinha, observando os preparativos e a beliscar alguma iguaria como sorvete ou frutas tropicais. Um dia desobedeci e fui mexer com as lagostas e obvio que uma me mordeu. Ficava deslumbrada com a maneira como ele por exemplo, picava cebola sem olhar a mão, sem se cortar, dando ordens ao redor e a falar comigo ao mesmo tempo. Eu tinha tanto medo dele se cortar que ficava congelada a prestar toda a atenção que meus 4 anos deixava. Mas, nesses anos todos eu nunca o vi machucar-se. O unico acidente que eu conheço foi quando um ajudante deixou escorregar-lhe das mãos uma panela de água fervente, que cobriu os pés de meu pai, arrancando-lhe de imediato a pele. Ele andou a fazer compressas nos pés meses a fio, mas nunca reclamava de dor. Eu só sei que lhe doia porque quando a minha mãe trocava a compressa, o labio superior dele transpirava.
Meu pai era muito macho, orgulhoso e teimoso. Se ele fosse brasileiro, podia ser personagem do Verissimo, um Cambará.
Na cozinha do restaurante, havia uma bancada de centro que era usada para cortar ou trinchar. O chão era geralmente coberto de fiapos de madeira de serralheria, para evitar que as pessoas escorregassem. Todos usavam tamancos e chapéus, sendo que o do chefe era o mais alto e pomposo. Chamavam-se "barretes". Minha mãe engomava-o e o meu pai saia com ele numa caixa de chapéus que tinha sido da minha avó, escondida dentro de uma sacola de supermercado. E meu pai tinha um temperamento tão notório que durante mais de um ano dentro daquela cozinha, o ajudante que nele derrubou a agua fervente girava ao redor da mesa de centro procurando manter-se a 180º do chefe.
Uma vez, no meio de um argumento, pegou um subalterno e trancou-o na camera frigorífica para ele "arrefecer os miolos". A pessoa foi solta logo depois. Mas não eram só os subalternos que o temiam. Lembro de uma vez que eu estava de férias e fiquei com ele na cozinha. Não me deixava mexer em nada, e se ficasse quieta, podia esperar a pausa dele para comer sorvete de baunilha (meu favorito até hoje). Os pedidos chegavam e saiam. Tudo muito organizado, e cada prato tinha de ser aprovado por ele, depois de o provar e acrescentar um galho de alecrim, ou passar o pano que ficava pendurado no avental para limpar uma gotinha invisivel de sujeira. De repente o maitre chamou-o de lado para um pedido especial. Ele reclamava quando o chamavam ao salão, para conhecer o chefe, mas no fundo apreciava o gesto. Mas naquele dia alguem pediu para trocar um ingrediente, e ele explicou que o pedido não funcionava daquela forma. O maitre voltou, insistindo e ele mais uma vez explicou que o pedido não era coerente e não daria certo. Por fim, veio o dono do restaurante, e foi nesse momento que meu pai arrancou o barrete, desamarrou o avental e arremessando-os em cima da mesa saiu. Eu fiquei lá sem saber o que fazer, sentada no meu canto. A equipe ficou desnorteada, o dono e o cozinheiro trocaram olhares, e eu levantei e sai de fininho. Quando cheguei lá fora, ele já estava no fim da rua, e eu corri atras dele. Virou-se para tras bravo e mandou-me para casa.
Depois eu soube que o dono do restaurante foi buscá-lo e se acertaram.
Desde então ele ainda fez muitas refeições, montou muitos cardápios, fez muitas viajens, teve muitas mulheres, bebeu muitos copos, e ganhou e gastou muito dinheiro.


Dia 24 de Janeiro de 2009 ele teve uma parada cardíaca que lhe deu uma morte quase tão passional como ele foi a vida toda.

Enquanto fazia a viajem de 12 horas para chegar lá, pensava aqueles pensamentos genéricos que a morte sugere. Como o corpo se comporta, como é a hora da morte, qual é a real consciencia...etc. Mas era dificil imaginar que o meu pai não vivia mais. Que não tinha mais vida aquele corpo que o levou a tantos lugares, a tantos prazeres a tantas aventuras. Nunca houve nada - mulher, criança ou trabalho capaz de o deter quando ele quis partir. Eu fui uma das crianças que não o deteve.
Se eu pensar nele como ser humano vejo um homem com muito talento, bonito, sedutor. Mas se o olhar como pai, vejo a sua humanidade e fraquezas como feridas abertas. Como mãe eu entendo o compromisso emocional que se desenvolve com um filho. E lembro de ele conseguir passar meses a fio sem procurar saber de mim, sem tampouco um telefonema. E quando eu finalmente dava o braço a torcer e o procurava, ele chorava e se lamentava de saudade, como se isso dependesse exclusivamente de mim. Ou de qualquer um dos 4 filhos.

Ele foi embora dia 24, mas já o tinha perdido outras vezes.
Perdi-o quando ele viajava e ficava meses sem dar noticias, perdi-o quando ele casou com outra mulher, e depois com uma terceira. Perdi-o quando ele mudou de casa e não deixou endereço ou telefone, ou em cada aniversário ou Natal em que não ligava.
E todas esas vezes, achei-o. Ia procurar por ele,
Nunca o julguei, nunca lhe cobrei nada, nunca tive com ele nenhuma daquelas conversas reveladoras e avassaladoras de filha para pai. Para qué? Cada um é como é. Ele viveu assim. Nunca me fez mal, nunca levantou a voz comigo, sempre foi carinhoso. O divórcio de meus pais teve um efeito devastador sobre meu irmão, mas eu não posso dizer o mesmo. Continuei a amar meu pai, aprendi a gostar da minha madrasta, a gostar de meus irmãos, e a aceitar meu pai da forma que ele era. Sem escrever ou telefonar.

Dizia Nietzsche: "When one has not had a good father, one must create one"
Eu procurei lembrar meu pai sempre da melhor maneira possivel, e de uma forma positiva.

Volto um ano atras no tempo.
O dia 13 de Novembro de 2007 amanheceu frio. Estava a familia quase toda junta para o enterro de meu irmão no cemitério de Benfica, em Lisboa. Na ultima esquina do cortejo, eu vi pela primeira vez o meu pai se rebaixar perante a vida. Ele estava desolado, e o desgosto de enterrar um filho era tanto que ele não conseguia sustentar a pose de forte. Não conseguiu dobrar a esquina e sentou-se um pouco com sua irmã Beatriz. E essa foi a unica vez que eu vi meu pai em posição fragil, com semblante firme e desafiador, mas com lagrimas a rasgarem-lhe os olhos.
E eu que estava no meio de um estupor próprio, tive de me fazer forte para ele. Passei a ser sua confidente e amiga.

Depois desse dia, ele chorava sempre que falavamos ao telefone. Lembrava as histórias do João, brincadeiras de pequenos, coisas que eu já tinha esquecido. Eu brincava com ele um pouco, tentava distraí-lo, mas imagino o sofrimento dele. Sugeri que entrasse em contacto com os meus irmãos, com quem ele brigara anos antes, mas nem pensar. Mas pelo menos ele retomou contacto com as irmãs. (Diz-me uma delas: "Eu não sei porque ele era assim, mas o teu pai sempre foi muito fugidio, não se deixava caçar, lembra-me do tio Bruges") Nunca conheci o Tio Bruges irmão da minha avó paterna, a Maria Bonita, mas reza a lenda que era um montez, nunca casou, nunca se firmou em lugar algum, nem se deixou domar pela vida.

Em Julho fui com meus meninos visitá-lo. Ele tinha envelhecido um monte. Tinha-o visto apenas 8 meses antes, e era como se tivesse envelhecido 10 anos. Mas estava animado, brincava com o neto, contava-lhe histórias de quando eu era pequena, queria saber tudo sobre ele, escola, futebol. Eu quis levá-lo para passear mas ele não quis, porque precisava cuidar dos netos da terceira esposa. Não insisti.

No meu ultimo post eu falo sobre os livros do Erico Verissimo, O Tempo e Vento que conta a saga da familia Terra Cambará.
Estou no penultimo livro, e nele li algo sobre o qual me perguntei há uns tempos. Fiquei feliz com isso, pois coincidiu meu raciocionio com o momento do livro, e eu adoro quando isso acontece.
Na nossa caminhada pela vida, vamos perdendo pessoas queridas. Algumas pessoas sofrem essas perdas mais cedo e outras mais tarde, mas ninguem passa ileso. Mas, me perguntei: com o numero de pessoas do lado de lá aumentando, as pessoas devem ficar com menos medo da morte. Obrigatoriamente. E no livro, um dos personagens perde uma filha e chega a essa mesma conclusão.

Então, quem sabe meu pai não está lá no outro lado, sem medos, lado a lado com o filho, com o pai, a mãe, os sogros o irmão e vários amigos? Ou como disse meu amigo, a tomar um Barca Velha 74

Quem sabe?

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