Girl From Sao Paulo

"you are crossing the tropic of capricorn".

28 November 2005

Especies Ameaçadas

Você acorda com um raio de sol brilhando violentamente em seu rosto. Você não sabe que horas são, só sabe que o sol já chegou até aqui invadindo o seu quarto, sua cama, seu corpo. Precisa se levantar e usar o banheiro, você segurou a noite inteira sua bexiga mas agora não dá para segurar mais. Quando tenta erguer sua cabeça do travesseiro ela lateja como se o ato tivesse detonado um dispositivo de bomba. Mas você levanta e consegue chegar até a porta do banheiro onde se apoia até passar a tontura. Você passa reto sem olhar seu reflexo no enorme espelho e senta-se na privada. O ruído incongruo de desenhos animados destaca-se no silêncio e logo se mixtura ao de sua urina pingando e você não lembra de ter deixado a tv ligada, muito menos no cartoon network. Mas logo lembra que é sabado, a empregada não vem e que hoje você não está sózinho. O movimento da casa, a tv, o aroma de café são da Clara. Ela já levantou, fez o café na maquininha que tanto a intrigou ontem, e provavelmente até já tomou seus sucrilhos e nescau. Já encheu com vida o seu espaço moribundo.

A sua cabeça continua prestes a explodir com cada mínimo movimento mas você precisa conseguir chegar na sala, o café vai ajudar. Coloca um robe para não sair nu e caminha descalço mesmo até a porta pausando no corredor. Para lembrar de sorrir.
“Clarinha” você chama. “Bom dia.”
“Oi” ela responde sem deixar de olhar para a tela da tv, a sua criança adulta, se esforçando para parecer descontraída. Você vai até a mesa de jantar e pega uma caneca. Ela não vai se virar mas você sabe que pelo canto do olho te observa temperar o café com leite e adoçante em gotinhas. Depois você leva a caneca até a sala para ficar mais perto dela. Tem de ir devagar, nada de ser impulsivo. Ela joga um olhar furtivo na sua direção, checando que é mesmo uma caneca o que você segura e você bebe sentindo um certo alivio a cada gole.
“Gostou pai?” ela pergunta e você aproveita que ela olhou e sorri antes de responder “sim, ficou otimo filha. onde você aprendeu a fazer café gostoso assim?”
“Ah pai, foi a maquininha né?” ela responde, mas sorri de volta satisfeita.
Você se sente trêmulo e fraco, tem vontade de vomitar, se estivesse sozinho ia ser mais facil. Ninguem te olhando, avaliando. Mas a Clarinha está aqui. Você prepara outra caneca de café, respira fundo. Vai dar tudo certo. Você não conseguiu chegar no aniversário dela a tempo de vê-la assoprando as velas, se atrapalhou de novo e ainda assim ela não mudou de ideia e quis vir. O vosso primeiro final de semana a sós na atual conjuntura. Você comprou uma tv de 20 polegadas, lençois de algodão egípcio para cama de solteiro que a moça da loja garantiu serem os melhores e que a Clara não tem como avaliar com seus 11 anos. Mas ela merece.

O sol brilha lá fora e os pássaros já estão cantando. É a primavera, as jabuticabas estão doces, os flamboyants se vestiram de vermelho e diante de todas estas condições é difícil pensar em algo que não seja alegre. Então você sente algo, uma sensação estranha - você olha para sua filha e sente esperança. Você pega o jornal em busca de algo que possam fazer juntos hoje; ballet, teatro ou cinema. Circo! O que será que uma garota de 11 anos quer fazer? Várias vezes você pensou nela quando passou na frente de algum outdoor na marginal achando que ela iria gostar, mas agora não lembra de mais nada.

Ela levanta-se e leva o copo sujo de nescau até a cozinha. Pausa para comerciais na tv, trégua para o frajola. Quando ela volta senta-se ao seu lado, no seu sofá. E você sente uma ... alegria, uma euforia contida. Será felicidade? Será que alguem como você pode estar sentindo isso? Depois de tanto tempo naufragado no mar da auto piedade, será possivel que ainda saiba identificar alegria? Você se deixa levar pela possibilidade, esquece por um momento suas dores e passa seus dedos fracos e trêmulos pelos cachos da Clarinha. Está seduzido. Sente de novo que tudo está sob controle, e levanta em direção a cozinha. Seu movimento desencadeia o dela que se levanta logo em seguida e corre para pegar algo no aparador perto da porta. Volta correndo carregando na mão a redação que trouxe da escola. “Olha pai, 100!” ela abana na sua frente procurando te distrair enquanto você se apoia na porta da geladeira procurando redempção. “100 pai, a melhor nota do colégio”. Ela pensa que consegue te salvar com boas notícias e pequenas conquistas. “..é sobre espécies ameaçadas!” ela diz. A sua cabeça vai explodir, você tem certeza. Você dá um empurrãozinho suave na porta da geladeira simulando um gesto corriqueiro e comenta algo positivo e encorajador sobre o trabalho e o talento dela. Fala do quanto ela é inteligente, esforçada. Mas na verdade só consegue pensar na geladeira, em como você vai conseguir chegar perto o suficiente para garantir só um golinho do smirnoff. Um só! Para te estabilizar, para te trazer de volta o raciocínio, para te devolver a um ponto de partida. Só um gole, depois você resolve como vai parar de vez. Você vai conseguir. Não precisa fazer tudo de uma vez, parar de beber, ser pai! Como você é impulsivo! Vai ter muitos finais de semana pela frente, mas nem todos vão ter a Clara. Depois você pára!

Mas ela merece que você tente mais um pouco. Ela sorri segurando a redação e você percebe camuflado no sorriso um brilho de ansiedade. Você não pode desapontá-la. Ela já passou por tanto e tão pequena. E ainda te ama, continua aqui na tua cozinha sorrindo, acreditando que só porque ela é filha você também vai poder ser pai. Está te dando um crédito.

Você pega uma cartela de Tylenol e toma três de 750mg. Depois vocês dois vão se arrumar.

Você tranca cuidadosamente a porta do banheiro e abre a gaveta do armário de onde tira o cantil de prata de lei que herdou de seu avô, mas enquanto desenrosca a tampa depara-se com seu rosto no espelho e resolve resistir mais um pouco. Coloca o cantil no bolso interno do blazer, no caso de precisar dele mais tarde.

Ela quer ir ao shopping. Você detesta shoppings mas concorda e dez minutos depois estão na Henrique Schaumann a caminho do Eldorado. Ela quer comer no América e depois dar um pulinho na Saraiva para ver o novo Nintendo.
Nossa, você percebe que há muito tempo não entrava no Eldorado. Você lembra até da ultima vez, que foi com a Renata. Ela te encontrou na frente do Parque da Monica depois do trabalho para irem ao cinema. Passaram antes na praça de alimentação e ela comprou amendoin japonês. Não tinha aquelas vontades de mulher grávida que acorda no meio da noite e precisa comer algo de quase impossível acesso. A Renata não! Só queria o amendoin japonês e durante o filme você assistiu um enredo do qual nem se lembra mais e o constante mascar crocante do amendoin. Ela soltava a mão da sua de cada vez que terminava de mascar para pegar mais uns amendoins, mas o resto do tempo a mão ficava lá, firme e segura com os dedos entrelaçados nos seus. Quando a Clarinha nasceu ficavam juntos horas a fio, ainda de mãos dadas olhando-a com orgulho. “Fenomenal” você dizia pensando que ela surgira do nada, assim. Um dia passaram de dois para três, e você nunca questionou isso, achou que seria assim para sempre. “Ela é fenomenal!” você dizia e os dois continuavam olhando, sustentados a noite inteira por um sentimento maior que o mundo, segurando as lágrimas porque não estavam tristes - só possuidos por algo que nem sabiam explicar.

Que merda! Para onde foi isso? Como é que as coisas podem mudar tanto assim? Será que a Renata também se pergunta isso? Pouco provável, ela já te substituiu! Que droga! Será que neste momento ela está segurando a mão dele com o mesmo carinho, e os dedos entrelaçados? Será que vos compara enquanto fazem amor?

“Experimenta” diz a Clara com o braço esticado segurando uma batata frita estupidamente comprida. Parece que ela está se divertindo, pelo menos aqui está dando tudo certo. Você observa-a mixturando a maionese com o ketchup e sujando delicadamente a pontinha da batata antes de a levar até a boca. Depois vocês descem as escadas rolantes para procurar a livraria porque ninguem lembra onde fica. Vocês param no corredor e olham o diagrama das lojas e a Clara aponta “Aqui pai, era embaixo mesmo”. Antes de continuar ela saca do bolsinho da mochila os 10 reais que você lhe deu antes de sairem de casa. “Vem papai, deixa eu te oferecer um cafézinho” e você aceita sorrindo “Boa ideia filha, eu estava pensando nisso”. É bom deixar que ela pague, para ela se sentir mais independente! Um café duplo para você e um pão de mel para ela. Você adoça com açucar mascavo mesmo, nada de adoçantes agora! Clara saboreia o pão de mel, comendo toda a cobertura de chocolate primeiro e depois o meio fofo e húmido. Quando terminam a mãozinha dela procura a sua e você deixa que ela tome a iniciativa porque não quer assustá-la, mas sua alegria transborda. Sente vontade de pegar nela e dar-lhe um abraço e cobri-la beijos, mas sabe que ainda está cedo para isso. E vocês seguem pelo corredor parando para olhar vitrines com a calma de quem tem a vida inteira pela frente.


“Voce já veio no parque da Mônica filha?”
“Claro, mas quando era pequena. Agora é chato.”
“Eu lembro de você vir com a escola uma vez, não foi?”
“É. No prézinho, né pai?”
Voces param na frente de uma loja de produtos de surf.
“E surfar, você gosta Clarinha?”
“Não muito. Eu gosto mais das montanhas. Este ano a gente passou 3 dias na Pedra Verde, foi legal”
“Você e a mamãe?” - que estranho, a Renata na Perda Verda.
“Não pai, foi com a escola.” ela diz com uma gargalhada.
“A mamãe na natureza pai?” ela ri de novo “cadê o meu laptop? Clara, onde você colocou o repelente? já passaram tres dias?”
Você esboça um sorriso imaginando as cenas. O shopping está movimentado apesar do lindo dia. Os cariocas dizem com razão que o shopping é a praia dos paulistas.

“Pai?” ela para em frente a uma papelaria.
“Sim filha?” você olha para ela mas ela está olhando em frente para a vitrine.
“Não era bom se a gente fosse sempre assim?”
“Assim filha?” o seu coração dispara em ritmo acelerado e agora é você que olha em frente.
“Assim como?”
Você sente sua mão tremendo e espera que ela não perceba. “Assim!” ela diz sacudindo os ombros.
“Ia filha.” e você quer pensar em algo adequado, inteligente, educativo para dizer, mas não vem mais nada.
“Ia ser bom”
Porque você sabe bem o que ela quis dizer. Assim - normal. Sem você passando mal ou deitado no sofá reclamando de dores ou dizendo bobagem que nunca lembra depois.
Assim. Um pai e uma filha andando pelo shopping procurando videogame num sábado qualquer.

“Pai?”
“Sim filha?”
“Eu te amo!” ela diz e solta a mão da sua apontando para a livraria antes de disparar correndo. Mas as palavras te apunhalam e você não consegue andar direito e pausa. Ela se foi, já entrou na loja, localizou o que procurava. Já se envolveu intensamente na próxima atividade. Mas somente agora você consegue murmurar “Eu também filha” .
Você continua caminhando até a porta da livraria, saca o cantil do bolso de seu blazer, desenrosca a tampa e suspira antes de despejar o conteúdo na boca. E pensa: ela é fenomenal.

2 Comments:

At 3:58 PM , Anonymous Anna Angelica said...

Uauuuuuuuuuuu!!! Acabei de ler, me deliciar e me emocionar com o texto "Especies Ameaçadas"! Fenomenallllllll!!
Beijos
Anna Angelica

 
At 5:06 AM , Anonymous Fa said...

GENIAL! Simplesmente, nao existe palavra mais adequada para comentar este texto.

 

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