Girl From Sao Paulo

"you are crossing the tropic of capricorn".

28 November 2005

Destrinchando Caravaggio

Certo dia me perguntaram quem é meu pintor favorito. Pensei uns segundos procurando uma resposta que fosse o mais sincera possivel levando em conta as coisas de que mais gosto em um artisita.
Caravaggio.
Minha resposta surprendeu-me mais do que a pessoa que me perguntou. Existem pintores com visões mais abrangentes, alguns mais admiráveis e outros até mais nobres. Mas não existe nenhum com quem eu sinta mais intimidade.

Quando eu era criança meus avós maternos pegavam todos seus netos para passarmos juntos as ferias de verão. Eles viviam em uma remota aldeia no sul de Portugal. Ali, sem a responsabilidade de escola ou o apego dos pais viviamos as melhores semanas do nosso ano. Os dias eram cheios de descobertas, aventuras e dias longos. Mas por ser uma aldeia muito isolada que sobrevivia da agricultura foi tambem o primeiro lugar onde eu tive contacto com a pobreza. Já tinha visto mendigos e ciganos pelas ruas de Lisboa mas nunca como em São Marcos eu tive a oportunidade de sentir a humanidade das pessoas que vivem nas margens das sociedade. Lavradores sizudos de foices e enchadas na mão nos esticavam a outra com o pão de suas merendas, a velha viuva solitária nos convidava a compartilhar seu ultimo pedaço de queijo. Eu, garota da capital, sentava nos banquinhos de cozinhas e em alpendres aceitando tudo curiosa: um chá de cidreira, uma história da Guerra, um lamento. Olhava a simplicidade daquelas vidas e me perguntava onde estava a igualdade de que tanto se falava na cidade. Queria saber onde estava aquela linha tenue que separa cada pessoa para um lado ou para o outro quando nasce.

Minha cumplicidade com Caravaggio começou, eu creio, nessa epoca. Ele foi o primeiro a pintar o povo, o submundo, os rejeitados, os sem eira nem beira. Desde então outros pintores o fizeram (Brower, Ostade, Hogarth, Goya) mas na sua maioria eles pintavam para documentar como viviam os desafortunados. Com o Caravaggio porem não era uma questão de mostrar mas de compartilhar, de estar no mundo com eles. Ele não descrevia para observar os outros, ele mostra uma visao da qual ele faz parte.

Em livros de historia da arte o Caravaggio é tido como um grande inovador, o inventor do chiaroscuro, o descobridor de técnicas de luz e sombra mais tarde levadas adiante por Rembrandt (entre outros). Sua vida pode ser considerada um passo importante no caminho da arte europeia. Mas para o Caravaggio que existiu, o que de fato nasceu em uma aldeia perto de Bergamo a luz e sombra que ele via tinham um significado muito pessoal porque estavam intrinsicamente ligadas a seus desejos e instinto de sobrevivencia. Por isso a arte de Caravaggio está ligada ao submundo.
O seu chiaroscuro lhe permitia abolir a luz do dia. As sombras ofereciam o refugio das quatro paredes. Sempre que ele pintou, pintou interiores. As vezes (Fuga do Egito) era obrigado a incluir uma paisagem de fundo, mas estas eram como tapetes ou cortinas, porque o Caravaggio se sentia bem vindo apenas no lado de dentro. Sua escuridão tem o cheiro de velas, de melões maduros prontos para comer, de roupa lavada esperando o sol secá-la. Ela é a escuridão de pensões baratas, encontros furtivos em vãos de escadas, jogos clandestinos de baralho. A impressão é que o melhor ainda está por acontecer. O chiaroscuro revela violencia, sofrimento, desejo, morte prematura mas os revela com toda sua humanidade. O que é banido junto com a luz do dia são a distância e a solidão – e estes são os maiores medos daqueles que vivem as margens da sociedade.
Os que vivem precariamente, amontoados em pequenos espaços desenvolvem uma fobia de espaços amplos e cheios de luz, fobia essa que o Caravaggio compartilhava.

No “The Calling of Saint Mathew” (c.1599) vemos 5 homens sentados em volta de uma mesa trocando fofocas, contando vantagens, separando os lucros do jogo. A sala está escura. De repente a porta é escancarada, e as duas figuras que entram nela fazem parte do mundo invasivo do lado de fora. Dois amigos de Mathew se recusam a olhar, outros dois olham os invasores com uma expressão que fica entre curiosidade e superioridade. Mathew é um fiscal de imposto, sua reputação é questionavel, isso o transforma. Ele olha e aponta o dedo para si mesmo como se perguntasse: “sou eu quem vocês procuram?” Mathew vai levantar e seguir os estranhos pelos becos estreitos da cidade. Depois vai escrever seu livro, viajar para a Etiopia, a Persia. Provavelmente sera assassinado.
Por traz de todo este drama e momento de decisão vemos uma janela – a passagem para o mundo lá fora. Na pintura renascentista geralmente as janelas são usadas como molduras: a luz do dia, paisagens. Mas, nesta janela não há luz. Ela é opaca. Misericordiamente, ela separa o que está fora do que está dentro. Qualquer coisa que vier de lá vai trazer dor.
Caravaggio era um pintor herege: seus trabalhos eram sumariamente rejeitados pela Igreja por causa dos assuntos que retratavam e a maneira como ele optava por faze-lo - apesar de algumas poucas figuras do clero o apioarem.
Sua heresia consiste de transpor temas religiosos para tragédias populares. O fato de ele supostamente ter usado o cadaver de uma prostituta como modelo para “Morte da Virgem” (c.1601) é um detalhe: mais importante ainda é que ela é então deitada no modo usado pelos pobres, e os que a observam morta o fazem com o mesmo custume e as mesmas expressões do povo. Nada de elites aqui.
Outros pintores maneiristas produziram obras com multidões agitadas mas o espirito era diferente. Na época, uma multidão era vista como aviso de calamidade iminente – fogo ou enchente. O espetador observa a tela de um lugar seguro, como em um teatro. Ao contrario, as telas do Caravaggio mostram um mundo onde as multidões se esbarram, multidões de corpos com lágrimas e suor. E tudo pode virar realidade a qualquer momento.
O submundo só se expõe as escondidas. Esse é o paradoxo de sua existencia social a assim se manisfestam seus mais profundos anseios.
Desejo muda de caracter 180 º. Quando ele surge, o desejo é a vontade de possuir, de sentir e tocar. Mais tarde, transformado – passa a ser o desejo de se entregar, de se unir com o desejado. De entre estes dois pontos convergentes, que se opõem, nasce a essencia do desejo. Este ultimo, o desejo de se perder de se abandonar desesperadamente é claramente o desejo que Caravaggio retratava em seus quadros.
Nos gestos das figuras as vezes lê-se uma ambiguidade sexual. A Madonna (do Rosário c. 1606) que afaga surreptivamente por baixo do robe a perna de Jesus; o jovem S. João Baptista (c.1602)sentado segura uma perna de cordeiro, como se fosse um penis. Em quase todas as circunstancias de contacto humano existe uma carga sexual. Mesmo quando duas substancias incompativeis se esbarram (pele e couro, pano e cabelo, metal e sangue) este contacto se transforma em carícia. No quadro do jovem Cupido (c.1601), a ultima pena da asa do anjo encosta na sua perna com a delicadez e precisão de uma experiente amante. O garoto não reage, não esboça emoção e nem tampouco um pelo se arrepia em seu corpo e assim Caravaggio deliberadamente allude sem se comprometer, desafiando como um grande sedutor.
Há uma expressão específica que se vê somente nos rostos do Caravaggio. E’ a expressão no rosto de Judith em Judith decapita Holofernes c.1599) ou a do garoto em Boy being Bitten by Lizzard c.1593 ou Narciso olhando seu relexo (c.1597), o de David segurando a cabeça de Golias c.1601. Trata-se de um olhar de concentração, de piedade exposta mas reprimida, da força da vulnerabilidade humana. A expressão de um animal antes de virar presa. Pensar em termos masoquistas aqui seria absurdo, uma vez que se trata de algo muito mais profundo; é o vacillo entre o prazer e a dor, a paixão e a relutância, a vida e a morte.
Nas obras do Caravaggio não existem muitos objetos, somente coisas simples como uma cadeira ou uma mesa que nunca conseguem chamar muita atenção. Surge então o corpo com luz no interior de trevas. O ambiente é impessoal assim como o mundo lá fora é hostil e por hora eles podem deixar de existir- o corpo desejado insunuando-se como uma aparição contra esta escuridão (que não define dia ou noite mas apenas algo escondido) promete acesso a um universo que oferece fuga.

1 Comments:

At 3:08 PM , Anonymous Anonymous said...

Oi, autora do texto sobre Caravaggio, sou editora executiva da revista DASartes e estou buscando um colaborador para escrever um materia sobre chiaroscuro em nossa esição de janeiro. Por favor, entre em contato com liege arroba dasartes ponto com para conversamos. Prabens por seu texto, estpa excelente.

 

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